Corria o ano de 1945. Era o final de
novembro, e o Brasil estava em polvorosa devido à iminente eleição que
ocorreria no dia 2 de dezembro. Tal eleição seria um marco para o Brasil:
Depois de 15 anos do governo de Getúlio Vargas, o Brasil teria uma eleição
livre e com caras novas. Os favoritos eram o Brigadeiro Eduardo Gomes e o
General Eurico Gaspar Dutra, conhecido como “marmiteiro”. Vargas já havia feito
o apelo pelo voto no General: “Votai em Dutra!”. Já Eduardo Gomes, da UDN,
partido da oposição, fazia sua campanha com o lema “Vote no Brigadeiro, que é
bonito e é solteiro”! Assim, muitas mulheres passaram a fazer campanha para o
Brigadeiro Eduardo Gomes. Não era o caso de Francisca, mulher de classe média e
que morava no Rio de Janeiro. Francisca discordava do seu marido, Manoel, que
era totalmente contra Getúlio Vargas e qualquer um que ele apoiasse. Era leitor
assíduo de Carlos Lacerda, jornalista da oposição que ficou conhecido como “O
Corvo”.
Manoel era eleitor declarado de
Eduardo Gomes, enquanto que Francisca, para não causar um escândalo entre os
amigos da família, guardava a sua opinião. Somente seu marido sabia, e já havia
a repreendido muitas vezes. Sempre que falava em votar em Dutra, ele ameaçava
até rasgar o título de eleitor de sua esposa para evitar isso.
Acontece que o casal estava
ligeiramente endividado, devido às compras de alguns móveis, e o pai de Manoel,
que era fazendeiro - um daqueles que apoiavam a chamada “Política do café com
leite”, abolida por Vargas - havia emprestado para o filho uma certa quantia,
que, somada ao que Manoel receberia em dezembro e em janeiro, seria o
suficiente para saldar as dívidas. O casal estava em uma rigorosa economia. No
dia 30 de novembro de 1945, faltando apenas 2 dias para a eleição, discutiram
acerca de política: Manoel chegou do trabalho confiante na vitória do
Brigadeiro Eduardo Gomes, e cantava, quase alucinado: “Vote no Brigadeiro, que
é bonito e é solteiro!”. Havia passado, depois do trabalho, num comitê do
candidato da UDN, pegou um brigadeiro e, chegando em casa ofereceu à sua
esposa:
-Prove do brigadeiro, para adoçar
sua vida e ver se você tira da cabeça essa ideia de votar no candidato de
Vargas.
Francisca, de sua parte, retrucou
cantando o jingle de Eurico:
“Marmiteiro, marmiteiro
Todo mundo grita
Porque lá na minha casa
Só se papa de marmita!”
Manoel se enfureceu:
-Olhe aqui, não quero mais ouvir
falar do Marmiteiro nesta casa! Aqui votamos no Brigadeiro!!!
Francisca calou-se. Depois do jantar
em silêncio, foram dormir. Preocupada com as dívidas da família, ela teve um
sonho. Nesse sonho, Vargas, com um sorriso no rosto, dizia: “Filha, votai em
Dutra! E não somente votai em Dutra, como também apostai em Dutra!!!”.
Naquele tempo, os jogos de azar no
Brasil eram liberados, Vargas havia liberado todos em 1934, e em 1941 proibido
apenas o jogo do bicho. Em algumas casas de apostas do Rio de Janeiro, rolavam
montanhas de dinheiro. Ouso até dizer que o dinheiro apostado em quem seria o
próximo presidente talvez fosse o suficiente para pagar toda a dívida externa
do Brasil na época. Pois bem: seguindo o conselho que recebeu no sonho,
Francisca não teve o menor pudor de pegar os 10.000 cruzeiros que o sogro lhes
havia emprestado, e apostar tudo na vitória de Eurico.
No dia seguinte, dois de dezembro,
ocorreram as eleições. O casal permaneceu intrigado, cada um votando num
candidato. Era a primeira vez que as mulheres brasileiras votavam para
presidente. E também tinha sido a primeira vez que Francisca arriscava tanto
dinheiro em apostas.
No início de janeiro de 1946
terminava a apuração dos votos em todo o Brasil. O rádio estava ligado, e o
casal esperava pelo resultado com ansiedade. Francisca, muito temerosa, contou
o que fez ao marido, que reagiu furiosamente:
-Por acaso você é louca?! Apostar
todo nosso dinheiro, os dez mil cruzeiros que papai nos emprestou, naquele
maldito marmiteiro? Você merece apanhar!!!
Alguns segundos depois, o radialista
da Voz do Brasil noticiava:
-Confirmado: Está eleito o General
Eurico Gaspar Dutra para o cargo de Presidente da República!
Manoel muda completamente, e abraça
sua esposa:
-Ah, meu amor, meu amorzinho! Minha
flor, ganhamos quanto?
-Vinte mil cruzeiros.
-Maravilha!!! Dá para pagar a dívida
e ainda sobra! Minha linda, você é maravilhosa!

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